Ana Carolina da Conceição Figueiredo

Pós-graduanda (Especialização) em Estudos Literários na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

Parte inferior do formulário

“Saber como se lê é determinar a parte respectiva do texto e do leitor na concretização do sentido. A leitura, de fato, longe de ser uma recepção passiva, apresenta-se como uma interação entre o texto e o leitor”.

Vincent Jouve

 

A leitura se concretiza na interação entre o texto e o leitor. Essa interação ocorre no processo de fusão dos conhecimentos que o leitor detém com o horizonte inscrito no texto. Nas palavras de Vincent Jouve,

a leitura de um texto, o modo pelo qual o sentido está constituído, é o mesmo para todos os leitores; é a relação com o sentido que, num segundo momento, explica a parte subjetiva da recepção. Em outros termos, cada leitor reage pessoalmente a percursos de leitura que, sendo impostos pelo texto, são os mesmos para todos (2002, 44).

 

Com base nessas afirmações, discutiremos, em primeiro lugar, a partir da leitura da crônica “Exílio”, de Milton Hatoum, o processo de interação entre o texto e o leitor. Em seguida, pensaremos as fronteiras entre a ficção e a realidade no âmbito da narrativa.

Recepção: do texto ao texto do leitor

Hans Robert Jauss, teórico da Estética da Recepção, compreende o leitor como ser que possui uma vivência de mundo, experiências pessoais, olhar histórico e social, condições afetivas e conhecimentos linguísticos e literários. Jauss chama de “horizonte de expectativas” essa bagagem que o leitor aciona para entender o texto. Nesse sentido, a leitura se desenvolve na fusão do horizonte de expectativas do leitor com o horizonte de expectativas do texto. De acordo com Jauss,

 

a obra que surge não se apresenta como novidade absoluta num espaço vazio, mas, por intermédio de avisos, sinais visíveis e invisíveis, traços familiares ou indicações implícitas, predispõe seu público para recebê-la de uma maneira bastante definida. Ela desperta a lembrança do já lido, enseja logo de início expectativas quanto a “meio e fim”, conduz o leitor a determinada postura emocional e, com tudo isso, antecipa um horizonte geral da compreensão vinculado, ao qual se pode, então – e não antes disso –, colocar a questão acerca da subjetividade da interpretação e do gosto dos diversos leitores ou camadas de leitores (1994, 51).

 

Na estrutura do texto, encontram-se saberes e conhecimentos inscritos, para que o leitor consiga compreender e experienciar a leitura. Wolfgang Iser nomeia essa organização textual de “leitor implícito”, que “incorpora tanto a pré-estruturação do sentido potencial efetuada pelo texto, como a realização desse potencial efetuada pelo leitor durante o processo de leitura”(Iser apud Oliveira: 2016, 5).

Sob essa perspectiva, compreende-se que a leitura envolve os processos relacionados à interação entre texto e leitor. Nesse sentido, pode-se concordar com as palavras de Jouve, para quem “a leitura é uma atividade complexa, plural, que se desenvolve em várias direções” (2002, 17). Isso ocorre uma vez que o texto literário é constituído não apenas de um entrelaçamento de signos originários das ideias de um ser empírico, ou seja, de seus pensamentos, vivências ou conhecimento de mundo. A leitura, para ter sentido e ganhar vida, depende também do encontro com o leitor, um ser pensante, com vivência cultural e subjetiva. O modo como esse leitor interpreta as informações veiculadas no texto depende também da composição, do modo como os signos estão estruturados.

Considerando a estrutura de “Exílio”, de Milton Hatoum, nota-se que o fragmento que abre a narrativa, Dezembro, 1969”, já situa o leitor em um contexto político e histórico. Ao mencioná-lo, o texto indica que o leitor precisa ter algum conhecimento do período de ditadura militar no Brasil, caso queira compreender o evento narrado. Outra questão importante se configura no modo como a história é exposta pela voz do narrador-personagem, que relata suas lembranças do passado, memórias de acontecimentos vividos por ele na época da ditadura.

Ao fazer referências à cidade de Brasília e a nomes de lugares da capitalW3, Asa Norte, hotel Nacional, Lago Paranoá, Eixo Rodoviário etc. –,“Exílio” lança pistas, indícios de informações para o leitor, que deverá fazer inferências e tomar como base o conhecimento prévio sobre a cidade, para compreender essas referências, podendo, de certa forma, associar a ficção ao real. O horizonte de expectativas implícito da crônica configura-se, assim, como os conhecimentos, saberes prévios que o leitor precisa possuir para compreender a história narrada. Como mencionado anteriormente, a recepção ocorre quando o horizonte implícito do texto se funde com o horizonte do leitor, o que condiciona a suplementação dos vazios por parte do leitor.

Esse modo de o texto se estruturar requer um maior esforço de abstração do leitor, considerando que “a leitura apresenta-se, pois, como uma atividade de antecipação, de estruturação e interpretação” (Jouve: 2002, 18). Assim, o leitor de “Exílio”, diante da complexidade da narrativa, precisa diminuir a velocidade de leitura, pois só assim consegue compreender os sentidos e as referências assinaladas. Sobre esse tipo de leitura, Barthes afirma que

 

não deixa passar nada; ela pesa, gruda ao texto, lê-se, assim se pode dizer, com aplicação e ânimo, enxerga em cada ponto do texto o assíndeto que corta as linguagens – e não a história: não é a extensão (lógica) que a cativa, o desfolhamento das verdades, mas o folhear do sentido (apud Jouve: 2002, 19).

 

Além disso, certas questões são omitidas pelo texto, as quais devem ser elaboradas e reconstruídas no desenrolar dos acontecimentos.

Nesse sentido, percebe-se uma organização estrutural que, ao mesmo tempo, lança pistas, deixa enigmas e cenas ambíguas, como, por exemplo, as inscritas em:

 

Pobre M.A.C. [...] Tremia ao meu lado, parecia chorar e continuou a tremer quando saltamos da viatura e escutei sua voz fraca: “sou menor de idade”, e logo uma bofetada, a escolta, o interrogatório. Ainda virou a cabeça, o rosto pedindo socorro...

Não o vi mais naquela noite longa. Eu também era menor de idade e escutei gritos de dor no outro lado de uma porta que nunca foi aberta. Em algum lugar perto de mim, alguém podia estar morrendo, e essa conjectura dissipouum pouco do meu medo.

[...] Trinta e dois anos depois, na primeira viagem de volta à capital, encontrei um amigo de 1969 e perguntei sobre M.A.C.

“Está morando em São Paulo”, ele disse. “Talvez seja teu vizinho”.

“Pensei que tivesse morrido”.

De alguma forma ele morreu. Sumiu do colégio e da cidade, depois ressuscitou e foi anistiado”.

“Exílio”, murmurei.

“Delação”, corrigiu Carlos Marcelo. “M.A.C. era um dedo-duro. Entregou muita gente e caiu fora”.

Senti um calafrio, ou alguma coisa que lembra o medo do passado (Hatoum: 2013, 38).

 

No fragmento acima, o narrador relata a reação do amigo M.A.C. após serem presos juntos. Todavia, segundo a narrativa, M.A.C. continuou preso e foi torturado. No trecho: “M.A.C. era um dedo-duro. Entregou muita gente e caiu fora” (p. 38), há a afirmação do narrador de que M.A.C. denunciou muitas pessoas que estavam envolvidas na luta contra a ditadura e depois fugiu.

 

No entanto, nota-se que a estrutura interna de “Exílio” dá conta de um discurso permeado por ambiguidades, as quais podem ser compreendidas como estratégias textuais para confundir o leitor. Diante dessa estrutura, o leitor irá criar outras hipóteses interpretativas. Além disso, ao considerar o espaço que o texto deixa para o leitor, este precisa mobilizar o imaginário para suplementar as demais informações e tomar como objetos de auxílio a ordem das ações e a linguagem simbólica. Sobre esse aspecto do texto literário, Jouve afirma que, “como as personagens, o espaço e a situação não podem ser descritos inteiramente, o leitor completará a narrativa em sua imaginação segundo aquilo que lhe parece verossímil” (2002, 63). Em outras palavras, caberá ao leitor reunir toda a significação da obra.

 

No caso de “Exílio”, uma das hipóteses interpretativas encontra-se no momento em que o narrador, ao afirmar, em seu fluxo de consciência, que “senti um calafrio, ou alguma coisa que lembra o medo do passado” (Hatoum: 2013, 38), deixa para o leitor a conjectura de que foi o narrador quem denunciou o amigo M.A.C. Essa conjectura é erguida quando retomamos o trecho:

 

Pobre M.A.C. [...] Tremia ao meu lado, parecia chorar e continuou a tremer quando saltamos da viatura e escutei sua voz fraca: “sou menor de idade”, e logo uma bofetada, a escolta, o interrogatório. Ainda virou a cabeça, o rosto pedindo socorro...

Não o vi mais naquela noite longa. Eu também era menor de idade e escutei gritos de dor no outro lado de uma porta que nunca foi aberta. Em algum lugar perto de mim, alguém podia estar morrendo, e essa conjectura dissipouum pouco do meu medo (Hatoum: 2013, 37).

 

Diante dos indícios, pode-se dizer que o narrador entregou o amigo para os militares e depois fugiu para São Paulo. Assim, o dedo-duro, exilado e anistiado poderá ser, numa outra leitura de “Exílio”, o narrador-personagem. Dessa forma, no decorrer da leitura da narrativa, o receptor poderá fazer mais de uma interpretação. Essas interpretações são possíveis. Todavia, para interpretar de modo coerente, o leitor terá de seguir a estrutura textual, pois “o texto permite, com certeza, várias leituras, mas não autoriza qualquer leitura” (Jouve: 2002, 25).

Entre as fronteiras da ficção e da realidade

A relação entre ficção e realidade é motivo de um árduo combate no âmbito da literatura. Grosso modo, para uns, a literatura aborda as coisas do mundo, do real; para outros, a literatura é autônoma, autorreferencial.

Refletindo sobre essas questões, pensa-se que, se a literatura é capaz de descrever a existência e sondar a subjetividade, por que não seria capaz de descrever o real, não de copiá-lo, mas, sim, com seu modo de organizar a linguagem, recriar seus conteúdos? Nesse sentido, com base no pensamento de Antoine Compagnon, convém pensar “não mais ‘como a literatura copia o real?’, mas ‘como ela nos faz pensar que copia o real?’ Por quais dispositivos?” (2010, 106).

Roland Barthes, no livro Aula, em que discute três forças da literatura que baseia nos conceitos gregos de mathesis, mimesis, semiosis, afirma entender por literatura

 

não um corpo ou uma sequência de obras, nem mesmo um setor de comércio ou de ensino, mas o grafo complexo das pegadas de uma prática: a prática de escrever. Nela viso, portanto, essencialmente, o texto, isto é, o tecido dos significantes que constitui a obra, porque o texto é o próprio aflorar da língua, e porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo das palavras de que ela é o teatro (1989, 16).

Pensando por esse ângulo, a literatura põe em cena uma linguagem que estrutura um entrelaçamento de signos que, por sua vez, extraídos do âmbito do real, criam no mundo ficcional elementos, significados e sentidos muito próximos da realidade. Esse real encenado na ficção leva o leitor a experienciar uma sensação ilusória da realidade. Em “Exílio”, as descrições da cidade de Brasília e o contexto de perseguição na ditadura militar podem levar o leitor a associar a ficção ao real. Dessa forma, o leitor é surpreendido pelo efeito do real, que não deixa de ser apenas uma armadilha construída pelos recursos linguísticos do texto ficcional. Para Barthes,

 

a função da narrativa não é “representar”, é constituir um espetáculo que nos aparece ainda mais enigmático, mas que não poderia ser de ordem mimética; a “realidade” de uma sequência não está no seguimento ‘natural’ das ações que a compõem, mas na lógica que nelas se expõe, se arrisca e se satisfaz [...]. “O que se passa” na narrativa não é, do ponto de vista referencial (real), à letra: nada, “o que acontece” é somente a linguagem, a aventura da linguagem, cuja chegada nunca deixa de ser festejada (apud Oliveira: 2007, 5-6).

 

O real presente no texto ficcional configura-se como uma aventura da linguagem literária, que, como afirma Barthes a respeito da literatura, “acredita sensato o desejo do impossível” (1989, 22).

Iser propõe pensar que o texto ficcional não está totalmente isento de realidade, mas a linguagem não consegue dar conta de todos os elementos que compõem o real. O ficcionista seleciona os elementos do mundo para combiná-los no universo ficcional. Desse modo, Iser sugere passar dessa dupla relação entre real e ficção para a tríade: real, fictício e imaginário. “Como o texto ficcional contém elementos do real, sem que se esgote na descrição deste real, então seu componente fictício não tem o caráter de uma finalidade em si mesma, mas é, enquanto fingida, a preparação de um imaginário” (Iser: 1984, 384). Assim, caberá ao leitor suplementar os vazios do escrito.

“Exílio” se inscreve na fronteira entre o real, o fictício e o imaginário, pois os elementos retirados da realidade são incompletos, devido à limitação dos campos de referência. Há poucos detalhes sobre o espaço da cidade de Brasília, não há descrições físicas dos personagens, apenas menção ao sentimento de medo. O leitor superará essa carência ao reconstruir os dados em seu horizonte de expectativas e tomará o mundo ficcional criado em seu imaginário como verdade. Isso ocorre porque, segundo Iser,

 

o texto ficcional contém muitos fragmentos identificáveis da realidade, que, através da seleção, são retirados tanto do contexto sociocultural quanto da literatura prévia ao texto. Assim retorna ao texto ficcional uma realidade de todo reconhecível, posta, entretanto, agora sob o signo do fingimento. Por conseguinte, este mundo é posto entre parênteses, para que se entenda que o mundo representado não é o mundo dado, mas que deve ser apenas entendido como se o fosse. [...] Pelo reconhecimento do fingir, todo o mundo organizado no texto se transforma em um “como se” (1984, 400).

 

Além disso, esse efeito ilusório do real poderá levar o leitor a vincular os eventos descritos na narrativa à vida do escritor. Pode-se dizer que isso acontece nas obras em que a narrativa se desenvolve no formato, por exemplo, de memórias, em que a origem e a história do autor conferem uma certa ambiguidade ao texto, sobre o que pertence à realidade e aquilo que se prende à ficção.

Nestas reflexões sobre “Exílio”, compreendemos que a crônica seduz também pela forma, pelo modo como se constrói. Isso ocorre porque encena um relato ambíguo e composto por um discurso ficcional permeado por uma realidade fingida, a demandar a atuação do imaginário do leitor.

No processo de suplementação dos vazios do texto, o leitor, ao mesmo tempo que desenvolve a criatividade, liberta-se das percepções comuns sobre o mundo. Por isso, para Jauss, “na atitude de fruição estética, o sujeito é libertado pelo imaginário de tudo aquilo que torna a realidade de sua vida cotidiana constrangedora” (apud Jouve: 2002, 107). Ao criar hipóteses interpretativas para compreender um texto ambíguo, o leitor se relaciona com o escrito e, nessa interação, vive e sente a obra.

 


Referências

BARTHES, Roland. Aula. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1989.

COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

HATOUM, Milton. “Exílio”. In: ______. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, pp. 37-8.

ISER, Wolfgang. “Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional”. In: COSTA LIMA, Luiz (org.). Teoria da Literatura em suas fontes. Tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984, v. 2.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Tradução de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Ática, 1994.

JOUVE, Vincent. A leitura. Tradução de Brigitte Hervot. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

OLIVEIRA, Marcia Lisbôa Costa de. “Mimesis e recepção em Budapeste, de Chico Buarque”. Anais do Encontro Regional da Abralic 2007. Rio de Janeiro, 2007, pp. 1-9.

______. “Anotações de aula do curso de especialização em Estudos Literários – trechos selecionados e traduzidos de The Implied Reader, de Wolfgang Iser”. São Gonçalo: FFP/UERJ, 2016.


Resumo

Este artigo tem por objetivo discutir a relação entre realidade, ficção e recepção na crônica “Exílio”, de Milton Hatoum. A análise terá como ponto de partida a interação entre o texto e o leitor. Além disso, trataremos da dicotomia entre real e ficção, refletindo sobre as configurações assumidas pelos dados de realidade no texto ficcional. Desse modo, realçaremos a construção textual, lançando mão de conceitos teóricos – sobretudo da Estética da Recepção – para pensar a linguagem literária.

Palavras-chaves: leitura; recepção; sentido; ficção; realidade.

 

Abstract

This article aims to discuss the relationship between reality, fiction and reception in the chronicle “Exile”, by Milton Hatoum. The analysis will have as its starting point the interaction between the text and the reader. In addition, we will deal with the dichotomy between real and fiction, reflecting on the configurations assumed by the reality data in the fictional text. In this way, we will highlight the textual construction, using theoretical concepts – especially the Aesthetic of Reception – to think the literary language.

Keywords: reading; reception; sense; fiction; reality.

Compartilhar

Submit to FacebookSubmit to Google PlusSubmit to TwitterSubmit to LinkedIn